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Grandes viagens...

Entre, sente-se, fique à vontade.

Tuesday, July 26, 2005

...

- Lembra quando a gente andava com os pés sujos de grama molhada pela sala?
Sorriu.
- Lembro de quando a gente não tinha medo da vida.
- E você lembra de quando te fiz comprar cigarros de filtro amarelo porque achava que os de filtro branco não me satisfaziam mais?
- E você conclui algumas semanas depois que tava amando demais, bebendo demais, fumando demais, e que o cigarro não precisava acompanhar sua intensidade de vida.
Fumou um cigarro.
- Eu sempre gostei da maneira como você segura o cigarro. É feminino, seduz... e o filtro amarelo com as unhas vermelhas me lembrava cinema europeu. Te via em preto e branco. E você linda, sempre.
Ruborizou.
- E eu lembro exatamente o dia em que me apaixonei perdidamente por você. Casamento da minha irmã.Pedi que você fosse comigo e você usava um terno preto com uma gravata lilás do seu pai e aquele tênis divertido que me fazia rir cada vez que olhava pros seus pés durante a valsa.
Sorriram.
- Eu não lembro quando foi que me apaixonei perdidamente por você.

...

- Quer mais uísque?
- sim.
...

Dançaram até que o jazz se calasse.

...

- Quer dançar comigo?
- Quero.

...

Beberam até que o uísque acabasse.

...

- Acho que sexo não vai ser tão ruim assim... Depois a gente toma um sal de fruta, bota a culpa no uísque e finge que nada aconteceu.
- Concordo.

...

Acordou. Calçou seu sapato e olhou pro homem que amou por tantos anos, que ama, que amará pra sempre. Pegou sua bolsa e bateu a porta. Nada aconteceu. Apenas uma pontada de dor de cabeça e um sal de frutas a menos na sua casa.

Monday, July 18, 2005

Por uma vida menos ordinária

Nossa história dava uma comédia romântica. Longa metragem, cinema mudo, vilões, mocinhos, bem Closer, bem Encontros e Desencontros e eu bem no tipinho Meg Ryan. Nossa história mata de rir e fala de amor. Faz chorar coração de pedra.Cria expectativa e torcidas pra final clichê/feliz. Roteiro incompleto, obra inacabada... Diálogos fortes, cenas cortadas. E eu que sempre quis fazer cinema, e você que sempre quis personagens fortes, e a gente que sempre tenta um final feliz. E eu que não quero ser heroína nem mocinha e você que não sei se daria um bom vilão. A nossa história daria um bom dramalhão mexicano. E eu que ando um tanto bêbada, entorpecida de memórias boas ou não, embevecida de finais tristes, de contos mal contados. Meu tipinho Meg Ryan vai bem com o seu tipinho Hugh Grant, e a gente tem química, ninguém pode negar. Então debaixo do cobertor frio a gente se encontra nas dúvidas, no gosto literário, no gosto por filmes, roupas, cenas, atores... A gente se encontra nas nossas cenas, tão tipicamente nossas que dariam um bom seriado americano. Imagine você, nossas vidas em partes, capítulos, a emoção dividida em intervalos pra vender produtos. E a gente fazendo chorar o adolescente mal amado, os amores mal vividos, a senhora que casou com quem não amava e passou o resto da vida perguntando o que seria a amor. Nossa história venderia milhões, renderia aplausos, e a gente poderia ganhar o Oscar. Já pensou? Nós no tapete vermelho com roupas exclusivas e flashs na cara? Não te excita? Nós desfrutando do sucesso de representar nossas vidas, nós vistos por lentes, nós vivendo uma ficção. Flash espocando, já não sei o que é real ou o que somos nós. Onde o flash começa? Onde você termina?
E eu torcendo pro roteirista inventar um final menos real, menos esperado...Mais feliz, eu diria. Porque final em aberto, já basta o da realidade. Não quero ser Meg Ryan e simular um orgasmo pra te convencer. Convença-me. Aliás, não é nesse filme que a Meg Ryan chora no final?
Corta!

Wednesday, July 06, 2005

Tédio (ou O Óbvio)


Como é odioso o som de uma partida de futebol. São Paulo x Atlético Paranaense, numa casa de flamenguistas. Só não a irrita mais do que vídeo cacetada aos domingos no Faustão. Precisava sair dali. Precisava andar pelada quando quisesse, fumar o que quisesse e quando quisesse e ouvir silêncio. Quando quisesse. E esse era só o começo de umas férias quase sem planos: Uma peça pra começar a fazer, uma carteira de motorista a tirar, uma viagem ao Recreio dos Bandeirantes, um show do Sr. João na sexta, uma suruba e algumas peças a assistir.
Viu o inverno chegando sentada na praia de Copa pegando o último fio se sol do outono.
Se pendura no telefone, pela falta do que fazer. O chiado do aparelho já nem a incomoda mais. A cadeira quebrada do computador também já não a incomoda tanto, a não ser pela dor na lombar que sente ao deitar.
Por que não conta logo a todos os membros da casa que é fumante? Por que não conta que já fodeu com bastante gente e que já fez até ménage? Por que não conta que fuma maconha e quer tomar bala?
Porque não quer ser a atriz-pirada-drogada-prostituta da família. Porque tem medo do exagero, e gosta de ser tratada com doses homeopáticas, e se assusta com a chegada de uma provável nova dor.
Seus pés gelados encostam-se às flores murchas da mesinha de centro. Não se abala. A roupa passada em cima da cômoda já ganha poeira. Não se incomoda. Os livros da bienal ainda não foram todos lidos. Não a atraem. Passa a tarde deitada ouvindo o barulho da chuva e do jogo na TV, torcendo pra que não haja gol. Merda, gol do São Paulo. Gritos dos flamenguistas da casa. Gritos abafados e irritados dentro dela. Precisava sair dali.
Pensa em vender camisetas, cordões, tomates secos. Pensa em trabalhar no outback e morar em Ipanema.
Faz que fuma a caneta verde que está na sua mão tamanha é a vontade de fumar um cigarro. Quase rasga o que acabou de escrever. O intervalo do jogo parece mais odioso do que o próprio jogo. Até seus pensamentos hoje estão sem graça, não poéticos, entediantes.
E não consegue inventar um final por texto que escreve.