O dia em que a tristeza foi-se embora.
Perco-me em cada esquina que passo, e as solas dos meus sapatos desgastam na paisagem triste, na passagem triste, nas palavras tristes que me ferem os ouvidos. Eu queria um pouco de paz. A janela está aberta pra levar a fumaça do meu cigarro, e as cinzas vão caindo sobre o mármore acinzentado pelo tempo. Olho-me no espelho e brinco com meus olhos cansados, brinco de olhar pra mim. Ensaio algumas feições, e passo pela constatação de que há mais rugas no meu rosto do que os meus vinte e dois anos deveriam me dar. Canso-me então da minha imagem (ou fico com tanto dó de mim que prefiro poupá-la). Rego uma planta, para afirmar a importância da minha existência, para compartilhar da dependência de um ser vivo que eu resolvi dar vida. Ela agradece, em silêncio, apenas com o ato de sugar rapidamente aquela água-vida que eu despejo. Então penso que haverão flores, e que vê-las nascer pode ser um dos momentos mais lindos da minha existência. Haverá sol, e me transporto à sensação de senti-lo bater sobre o meu rosto num fim de tarde, causando em mim uma pulsão de vida. Aquele famoso fio de esperança. Aquele sentimento otimista de que um dia, pelo menos por um dia, tudo ficará bem. Então abro as cortinas, e deixo a primavera entrar. Os móveis ganham cores novas com a entrada de luz natural em suas brutas formas. Sinto a claridade entrar em minha bruta forma. E de repente, na mesma pulsão de um orgasmo, sinto a vida entrar em mim, amaciando meus órgãos, enfeitando minhas veias. O barulho da rua me lembra que as pessoas continuam. Nada parou. Então eu tomo a sábia decisão de seguir.

1 Comments:
Sim ... é isso mesmo ... é preciso seguir e reinventar a primavera, mesmo que ainda seja outono.
Um beijo grande senhorita!
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