3x4
Achou um 3x4 dele, e súbito pensou em jogá-lo fora.
Pela janela, o domingo passava triste e cinzento, confirmando a previsão de frente fria que atacaria em breve o outono disfarçado de verão que esquentava os cariocas. - Um dia normal, pensou ela, já anunciando sua preguiça em acordar cedo na segunda feira chuvosa que a aguardava.
Achou um 3x4 dele. – Coincidência, pensava aflita, já que sonhara com ele todos seus sonhos daquela madrugada.
Primeiro sonhou que eles eram heróis, e que juntos podiam salvar o mundo.
Segundo sonhou que eles eram casados, e que juntos podiam salvar a eles mesmos.
Terceiro sonhou que eles apenas se amavam, e que não podiam estar juntos.
Acordou e achou um 3x4 dele, e sem esperar um pensamento mais racional vir, vestiu sua capa de chuva e foi em direção à sua casa, com a foto 3x4 na mão. O vento da frente fria gelava seu rosto ainda quente da cama, até que chegou à sua porta.
- oi.
- desculpa.
- o quê?
- eu ter vindo.
- por quê?
- porque eu não deveria ter vindo.
- Já tomou café?
- Tô sem fome, obrigado.
- Mas eu quero que você entre.
- e eu quero que você me ame.
Silêncio interrompido pelo toque do telefone. Ela permanece com os pés molhados fincados no tapete de boas vindas. Ele vai até o telefone, e sussurra palavras para alguém do outro lado da linha que ela supostamente não sabe quem. Volta.
- entra, tá frio, você tá molhada.
- Só vim te devolver isso.
- por quê?
- Porque não quero sonhar com você e ao acordar lembrar do seu rosto.
- eu te incomodo?
- sim.
O diálogo estancava ali. Ela colocou o 3x4 nas mãos trêmulas do corpo assustado dele, e virou as costas como se deixasse pra trás todas suas frustrações e noites em claro. Como se abandonasse ali seu maior tesouro, anos de amor e ódio, noites de fumaça e cachaça. Apertou o botão do elevador, e nos poucos segundos de espera segurou bem os olhos para que nenhum olhar escapasse em direção a cena de filme que acabara de acontecer. Entrou de cabeça erguida no elevador, se olhou no espelho, e se sentiu uma mulher heroína, protagonista de novela das 8. Ele olhava pras pegadas de lama que os pés dela deixaram no seu tapete. E eles talvez tenham sido felizes para sempre.
Pela janela, o domingo passava triste e cinzento, confirmando a previsão de frente fria que atacaria em breve o outono disfarçado de verão que esquentava os cariocas. - Um dia normal, pensou ela, já anunciando sua preguiça em acordar cedo na segunda feira chuvosa que a aguardava.
Achou um 3x4 dele. – Coincidência, pensava aflita, já que sonhara com ele todos seus sonhos daquela madrugada.
Primeiro sonhou que eles eram heróis, e que juntos podiam salvar o mundo.
Segundo sonhou que eles eram casados, e que juntos podiam salvar a eles mesmos.
Terceiro sonhou que eles apenas se amavam, e que não podiam estar juntos.
Acordou e achou um 3x4 dele, e sem esperar um pensamento mais racional vir, vestiu sua capa de chuva e foi em direção à sua casa, com a foto 3x4 na mão. O vento da frente fria gelava seu rosto ainda quente da cama, até que chegou à sua porta.
- oi.
- desculpa.
- o quê?
- eu ter vindo.
- por quê?
- porque eu não deveria ter vindo.
- Já tomou café?
- Tô sem fome, obrigado.
- Mas eu quero que você entre.
- e eu quero que você me ame.
Silêncio interrompido pelo toque do telefone. Ela permanece com os pés molhados fincados no tapete de boas vindas. Ele vai até o telefone, e sussurra palavras para alguém do outro lado da linha que ela supostamente não sabe quem. Volta.
- entra, tá frio, você tá molhada.
- Só vim te devolver isso.
- por quê?
- Porque não quero sonhar com você e ao acordar lembrar do seu rosto.
- eu te incomodo?
- sim.
O diálogo estancava ali. Ela colocou o 3x4 nas mãos trêmulas do corpo assustado dele, e virou as costas como se deixasse pra trás todas suas frustrações e noites em claro. Como se abandonasse ali seu maior tesouro, anos de amor e ódio, noites de fumaça e cachaça. Apertou o botão do elevador, e nos poucos segundos de espera segurou bem os olhos para que nenhum olhar escapasse em direção a cena de filme que acabara de acontecer. Entrou de cabeça erguida no elevador, se olhou no espelho, e se sentiu uma mulher heroína, protagonista de novela das 8. Ele olhava pras pegadas de lama que os pés dela deixaram no seu tapete. E eles talvez tenham sido felizes para sempre.


