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Grandes viagens...

Entre, sente-se, fique à vontade.

Monday, May 29, 2006

Ainda sobre mulheres...

Ela não era mais forte do que as mulheres mais fortes do mundo. Também não tinha as curvas mais belas do que as curvas mais belas das mulheres mais belas do mundo. Ela tinha poucas certezas na vida , e uma delas era a angustiante e absoluta certeza de que ela nunca seria a mulher mais importante do que as mulheres mais importantes da vida dele. Dele, que também não era o homem mais forte do que os homens mais fortes do mundo. E ele tinha um beleza que só ela e as mulheres importantes da vida dele conseguiam enxergar. Às vezes, ela deixava rolar em seu rosto algumas lágrimas que saíam sem que ela mesma soubesse o porquê, ou o por quem, ou o pra quê. Só sabia quê. Às vezes essas lágrimas saíam em público, no meio do bar onde ela costumava tomar sua cerveja quase diaramente, sozinha. Às vezes no meio do metrô. Às vezes no meio de um almoço de domingo em família. Mas só às vezes. Ela não era mais sábia do que as mulheres mais sábias do mundo, porque essas, com alguma certeza, ao menos sabiam porquê estavam chorando. por quem. ou pra quê. Ela sabia a diferença entre fazer sexo pela simples busca do prazer momentâneo e fazer sexo com ele, corpo que encaixava tão como peça que faltava no corpo dela. E fazer sexo por sexo deixava ela com uma sensação de quase nada no dia seguinte. De quase puta. Dava uma depressão, daquelas que dá no dia seguinte depois de usar pó. Isso ela deduzia, só. Ela só queria ter uma vida normal, e isso pra ela significava ter um amor normal. Tão simples, tão fácil, tão humano. Mas ela não tinha, nunca teve, ou não sabia o que era o amor. E ela talvez nunca saberá. Ela pensa que o amor é igual ao amor que o Cartola canta. E talvez não seja. Só porque ela não é a mulher mais sábia das mulheres mais sábias do mundo. E nem a mais feliz.

Saturday, May 13, 2006

A Dama do Lotação

Depois que ela soube que haviam inventado um vagão de metrô exclusivo para mulheres, sua rotina sacudiu um pouco. Afinal, Amélia estava tão acostumada a sentir em seu corpo o toque de corpos estranhos, corpos que ela não escolhia sentir, corpos bonitos ou não. De manhã eram corpos limpos, acabados de sair do banho, pelo menos em sua maioria. À noite eram corpos de um dia de trabalho, suados e vestidos por roupas já um tanto amassadas e sujas. Mas eram corpos que, afinal, ela já estava tão acostumada a sentir. Resolveu então experimentar a sensação de viajar de metrô encostando-se a corpos unicamente femininos. A faixa cor-de-rosa colada no vagão indicava que ali era o lugar delas, das mulheres-trabalhadoras-casadas-pudicas-feministas-que/não/suportam/homens/roçando/em/seus/corpinhos/gostosos. Amélia respirou fundo e mergulhou naquele universo de perfumes, shampoos, sapatos com saltos finos, bolsas espaçosas que esbarram em tudo e todos, voz fina e aguda gritando quando algum pobre ser da espécie masculina sem querer quase entra naquele vagão dos sonhos de qualquer homem e conversas sobre homens abusados que tentam entrar no vagão dos sonhos de qualquer homem. Amélia quase sufocou naquele universo cor-de-rosa. Ainda sentia algumas mãos que sem querer esbarravam em suas generosas nádegas, mas não se tranqüilizava com o fato de ter certeza de que eram mãos femininas, limpinhas e bem tratadas com cremes e esmaltes. Pelo contrário. Se alguma mão haveria de esbarrar em suas generosas nádegas, que fossem mãos que realmente se interessavam pelo assunto. Amélia começou então a se sentir em um universo meio lésbico demais, afinal, se houvesse alguma lésbica ali, ela sim seria feliz. E as mulheres-trabalhadoras-casadas-pudicas-feministas nunca saberão se continuam sendo assediadas, agora por outras mulheres, o que significa praticamente uma traição sem perdão dentro da classe feminina. Decidida, Amélia saltou do vagão de vaginas e correu para o vagão ao lado. Ao entrar, os homens com caras desoladas de mau-humor gerado pela falta de vontade de trabalhar somada a tristeza de tocar somente corpos masculinos, abriram um largo sorriso de esperança somado a pensamentos bem inescrupulosos voltados a Amélia. E ela não estava nem um pouco preocupada com esses pensamentos. Amélia só queria voltar a sua rotina, encostar-se a corpos que já estava tão acostumada a encostar, olhar discretamente para o dono da mão que sem querer encostava-se a suas generosas nádegas e ter a confirmação de que era uma mão sortuda, que se interessava pelo assunto. Ela se sentia a própria Dama do Lotação, e isso até gerava nela um certo tesão destemido que se evidenciava ali naquele ambiente tão...másculo. Amélia se sentia tão mais confortável naquele vagão. Nunca mais fez uso de seu direito de viajar roçando em mulheres. Afinal, a Amélia sim é que era mulher de verdade.

Thursday, May 04, 2006

Um ano de blog!

Esse blog fez um ano. Aproveitei pra ler de novo algumas postagens, e percebi que muita coisa aconteceu. Obrigado a todos que lêem minhas pirações, obrigado aos que comentam, obrigado aos que não comentam também, porque certas coisas desprezam comentários.