A Dama do Lotação
Depois que ela soube que haviam inventado um vagão de metrô exclusivo para mulheres, sua rotina sacudiu um pouco. Afinal, Amélia estava tão acostumada a sentir em seu corpo o toque de corpos estranhos, corpos que ela não escolhia sentir, corpos bonitos ou não. De manhã eram corpos limpos, acabados de sair do banho, pelo menos em sua maioria. À noite eram corpos de um dia de trabalho, suados e vestidos por roupas já um tanto amassadas e sujas. Mas eram corpos que, afinal, ela já estava tão acostumada a sentir. Resolveu então experimentar a sensação de viajar de metrô encostando-se a corpos unicamente femininos. A faixa cor-de-rosa colada no vagão indicava que ali era o lugar delas, das mulheres-trabalhadoras-casadas-pudicas-feministas-que/não/suportam/homens/roçando/em/seus/corpinhos/gostosos. Amélia respirou fundo e mergulhou naquele universo de perfumes, shampoos, sapatos com saltos finos, bolsas espaçosas que esbarram em tudo e todos, voz fina e aguda gritando quando algum pobre ser da espécie masculina sem querer quase entra naquele vagão dos sonhos de qualquer homem e conversas sobre homens abusados que tentam entrar no vagão dos sonhos de qualquer homem. Amélia quase sufocou naquele universo cor-de-rosa. Ainda sentia algumas mãos que sem querer esbarravam em suas generosas nádegas, mas não se tranqüilizava com o fato de ter certeza de que eram mãos femininas, limpinhas e bem tratadas com cremes e esmaltes. Pelo contrário. Se alguma mão haveria de esbarrar em suas generosas nádegas, que fossem mãos que realmente se interessavam pelo assunto. Amélia começou então a se sentir em um universo meio lésbico demais, afinal, se houvesse alguma lésbica ali, ela sim seria feliz. E as mulheres-trabalhadoras-casadas-pudicas-feministas nunca saberão se continuam sendo assediadas, agora por outras mulheres, o que significa praticamente uma traição sem perdão dentro da classe feminina. Decidida, Amélia saltou do vagão de vaginas e correu para o vagão ao lado. Ao entrar, os homens com caras desoladas de mau-humor gerado pela falta de vontade de trabalhar somada a tristeza de tocar somente corpos masculinos, abriram um largo sorriso de esperança somado a pensamentos bem inescrupulosos voltados a Amélia. E ela não estava nem um pouco preocupada com esses pensamentos. Amélia só queria voltar a sua rotina, encostar-se a corpos que já estava tão acostumada a encostar, olhar discretamente para o dono da mão que sem querer encostava-se a suas generosas nádegas e ter a confirmação de que era uma mão sortuda, que se interessava pelo assunto. Ela se sentia a própria Dama do Lotação, e isso até gerava nela um certo tesão destemido que se evidenciava ali naquele ambiente tão...másculo. Amélia se sentia tão mais confortável naquele vagão. Nunca mais fez uso de seu direito de viajar roçando em mulheres. Afinal, a Amélia sim é que era mulher de verdade.

4 Comments:
Camila, eu tinha dito que a tua carta de amor tinha sido o teu melhor texto até então.
Preciso me corrigir porque você se superou nesse. E eu não vou duvidar se o próximo for melhor...
Deu muito gosto de ler. Meus parabéns.
Mas é um absurdo desdenhar de um vagão de vaginas heheh.
Beijos...
Ah! Os contos de volta!Adorei! Beijos
Amélia é safada, isso sim!
E VIVA AS AMÉLIAS...MAIS AMÉLIAS E O MUNDO SERIA MELHOR...ATUALIZA, TÁ?
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