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Grandes viagens...

Entre, sente-se, fique à vontade.

Monday, May 23, 2005

3x4

Achou um 3x4 dele, e súbito pensou em jogá-lo fora.
Pela janela, o domingo passava triste e cinzento, confirmando a previsão de frente fria que atacaria em breve o outono disfarçado de verão que esquentava os cariocas. - Um dia normal, pensou ela, já anunciando sua preguiça em acordar cedo na segunda feira chuvosa que a aguardava.
Achou um 3x4 dele. – Coincidência, pensava aflita, já que sonhara com ele todos seus sonhos daquela madrugada.
Primeiro sonhou que eles eram heróis, e que juntos podiam salvar o mundo.
Segundo sonhou que eles eram casados, e que juntos podiam salvar a eles mesmos.
Terceiro sonhou que eles apenas se amavam, e que não podiam estar juntos.
Acordou e achou um 3x4 dele, e sem esperar um pensamento mais racional vir, vestiu sua capa de chuva e foi em direção à sua casa, com a foto 3x4 na mão. O vento da frente fria gelava seu rosto ainda quente da cama, até que chegou à sua porta.

- oi.
- desculpa.
- o quê?
- eu ter vindo.
- por quê?
- porque eu não deveria ter vindo.
- Já tomou café?
- Tô sem fome, obrigado.
- Mas eu quero que você entre.
- e eu quero que você me ame.

Silêncio interrompido pelo toque do telefone. Ela permanece com os pés molhados fincados no tapete de boas vindas. Ele vai até o telefone, e sussurra palavras para alguém do outro lado da linha que ela supostamente não sabe quem. Volta.

- entra, tá frio, você tá molhada.
- Só vim te devolver isso.
- por quê?
- Porque não quero sonhar com você e ao acordar lembrar do seu rosto.
- eu te incomodo?
- sim.

O diálogo estancava ali. Ela colocou o 3x4 nas mãos trêmulas do corpo assustado dele, e virou as costas como se deixasse pra trás todas suas frustrações e noites em claro. Como se abandonasse ali seu maior tesouro, anos de amor e ódio, noites de fumaça e cachaça. Apertou o botão do elevador, e nos poucos segundos de espera segurou bem os olhos para que nenhum olhar escapasse em direção a cena de filme que acabara de acontecer. Entrou de cabeça erguida no elevador, se olhou no espelho, e se sentiu uma mulher heroína, protagonista de novela das 8. Ele olhava pras pegadas de lama que os pés dela deixaram no seu tapete. E eles talvez tenham sido felizes para sempre.

Sunday, May 08, 2005


Posted by Hello

Give me love (give me peace on earth)

Tenho que escrever agora. Acordei com uma sensação de desprendimento, e minha covardia me leva a crer que essa sensação pode passar a qualquer momento... então tenho que escrever agora. Tenho que aproveitar o hoje, pois tô conseguindo seguir meu objetivo ( mesmo que eu não tenha claro pra mim qual seja ele). Aproveito Marisa Monte, que tá cantando aqui do meu lado, com uma voz tão suave quanto de mulher forte que eu fantasio que ela seja. Aproveito os últimos encontros e desencontros. Inspiraram-me.
Acordei e vi que você não tava mais aqui. E não desejei seus lábios, não imaginei como seria a gente. Nem pedi a Deus – ou a quem quer que atenda pedidos nossos – que fizesse um milagre por nós. Tô descrente de amor. Tô duvidando até de final feliz de novela. Finalmente tô descrente da gente. E isso não tá me doendo tanto. Eu pensava em drama, em choro molhando colchão, em soluços no meio do engarrafamento. Eu pensava em cena de filme, em dramalhão mexicano. Eu pensava em cartas de ex-amor, escritas a mão e a caneta de pena, com a assinatura borrada pela lágrima inesperada. Eu pensava em telefonemas no meio da madrugada, maços de cigarro fumados velozmente, em Vinícius de Morais...
Mas aí eu acordei e você não tava mais e eu fui ouvir Marisa. E ela me disse no seu mais perfeito inglês “ give me peace on earth... baby it ain´t over´ til it´s over”. E eu dancei.