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Grandes viagens...

Entre, sente-se, fique à vontade.

Sunday, January 15, 2006

Coração suburbano ( um mini conto da zona norte)

Se encontravam sempre as seis e quarenta e três da tarde naquele mesmo vagão de metrô. Ele estava sempre ouvindo seu radinho, e quando começava o horário político às sete horas, fingia estar cantando uma música qualquer, só para ter uma ação dramática. Ela estava sempre com seu livrinho Código da Vinci nas mãos, mas como só estava lendo porque todo mundo já tinha lido, e além do quê não se interessava nem um pouco pelo assunto, fazia uma encenação de leitura passando as páginas de vez em quando. Os olhares eram sempre discretos. Ele olhava pelo reflexo na janela quando estavam passando por algum túnel, e ela olhava por cima daquela capa vermelha daquele livro chato e imenso. Os dois saltavam sempre na estação de transferência para a linha dois, e ficavam esperando o vagão no lugar onde já sabiam que a porta parava. Eles e as trezentas pessoas que sempre estavam por ali. Ás vezes, quando a sorte permitia, eles conseguiam sentar bem pertinho. Podiam sentir o calor um do outro. Quando isso acontecia, a viagem era muito mais interessante. E assim iam até a estação de Del Castilho, onde ela ficava. Ele saltava uma estação depois, e a distância entre a estação dela e a estação dele era justamente o tempo exato dele pensar “Meu Deus, como ela é linda” e planejar um futuro, casamento, filhos. Sobravam alguns segundos para ele se dar conta que estava ouvindo horário político e desligar o rádio. Quando chegavam o sábado e o domingo, batia uma ligeira tristeza no olhar dos dois. Uma saudade estranha. E segunda-feira, enquanto as pessoas normais acordavam de mau-humor, eles trabalhavam felizes e ansiosos. E isso durou o quê? Uns quatro meses? Ela nem tinha acabado o Código da Vinci ainda. Eles se encontraram na inauguração da expansão do shopping Nova América. O coração pulando, olhos brilhando, pernas bambas, “Meu Deus, eu amo essa mulher”, ele pensou, e nem um pouco hesitante, foi furando aquele mundo de gente até chegar a ela. “Eu te amo!”, ele disse, “ E eu também”, ela respondeu. A bandinha que tocava garota de Ipanema se calou. A platéia que a tudo via com sacolas de compras nas mãos começou a aplaudir fervorosamente aquela linda cena de amor com cenário suburbano. E eles se beijaram pela primeira vez. E se casaram três meses depois. Hoje fazem 6 anos de casamento feliz, e vão comemorar no Nova América, junto com suas duas meninas, uma de 4 e outra de 2.E uma das maiores funções deles é simplesmente viver, pra provar que o amor existe.

3 Comments:

Anonymous Anonymous said...

vc já pensou em escrever um livro?

8:14 AM  
Anonymous Anonymous said...

Isso, amiga! A esperança é a última que morre!

10:27 AM  
Anonymous Anonymous said...

Camilaaaaaa muito legal o q vc escreveu...sei lá se vc escreveu muito bem ou se vc disse o q eu queria escutar, não sei, de qualquer forma, ficou muito bom!
Pô vc chegou a conclusões...maneiro mesmo
bjosss

6:23 AM  

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